Em São Paulo, Toyota agita a indústria

Em um momento de crise da indústria, Sorocaba prospera com nova fábrica 

A inauguração da fábrica da Toyota em Sorocaba (SP) foi na quinta-feira, dia 09 de agosto, mas antes disso, quase 900 funcionários com o macacão cinza estampado com o logo vermelho da montadora japonesa já trabalhavam no local. A unidade concentrava em junho 19% dos 4.663 trabalhadores da Toyota no Brasil, porcentual que chegará a 30% em 2013. Junto com eles, veio uma equipe de dez fornecedores que abriram suas fábricas ao lado da empresa. 

Em Sorocaba é onde a Toyota produz o seu primeiro carro compacto, o Etios. O pátio ainda está vazio, mas, olhando de fora, está tudo pronto. As bandeiras do Brasil, do Japão e do Estado de São Paulo estão hasteadas em frente a um enorme galpão recém-pintado. Um viaduto e uma passarela que darão acesso às quatro portarias da fábrica ainda têm o pó da obra e só falta o acabamento.

Com a inauguração da fábrica, a chegada de engenheiros e técnicos que vão trabalhar na produção do novo carro se intensificou. O encarregado de produção Ademir Manzano trabalha há 12 anos na fábrica da Toyota em Indaiatuba, a cerca de 60 km de Sorocaba, e foi transferido para a nova unidade em fevereiro. 

Ele aproveitou o bônus recebido da empresa pela transferência para dar a entrada em uma casa no bairro Parque São Bento, perto do complexo industrial. "Por enquanto, vou e volto todo dia, mas vou me mudar na metade do mês", disse Manzano, em frente à casa nova, ainda vazia. Na mesma rua há seis vizinhos que trabalham na Toyota. 

A montadora pretende ter 1.500 trabalhadores em Sorocaba. Ao todo, a nova fábrica deve gerar cerca de 10 mil empregos diretos e indiretos, segundo o secretário de Desenvolvimento Econômico de Sorocaba, Mário Tanigawa. 

Economia aquecida. O impacto da chegada da Toyota ultrapassou o setor industrial e mexeu com toda a economia da cidade. O maior reflexo é na zona norte, até então considerada uma região "esquecida" de Sorocaba, que mudou de patamar depois que recebeu a fábrica nos seus arredores. "O eixo de desenvolvimento da cidade está se deslocando para a região", disse o diretor financeiro da Associação Comercial de Sorocaba, Rafael Nochelli. 

Um dos primeiros setores a se aquecer foi o mercado imobiliário. "Houve uma corrida por imóveis após o anúncio da fábrica da Toyota, inicialmente industriais e depois residenciais", disse o empresário Sergio Jacinto, dono da Sorocaba Imóveis. A montadora inaugurou um segundo distrito industrial na cidade - a fábrica ocupa 3,7 milhões de metros quadrados de uma área de 24 milhões de m² destinados à indústria. 

Neste ano, a chegada dos trabalhadores da fábrica fez o mercado residencial se aquecer. Só o corretor Danilo Trindade estima que vendeu imóveis para mais de 30 funcionários da Toyota no Parque São Bento nos últimos quatro meses. E deve ser só o começo. O bairro está tomado de placas com lançamentos imobiliários, principalmente em condomínios fechados. 

Ao perceber uma escalada nos preços, o engenheiro Marcio Nakamura correu para comprar sua casa em setembro do ano passado, mesmo sabendo que sua transferência da fábrica da Toyota de Indaiatuba para a de Sorocaba seria apenas em fevereiro. "Eu percebi que, de uma semana para outra, a casa que eu queria não estava mais disponível e os preços ficavam mais caros", conta Nakamura, que pagou R$ 125 mil na casa, hoje avaliada em cerca de 30% mais. 

A chegada de novos moradores e o aumento da renda dos atuais puxaram uma expansão no comércio local. "Um ano atrás, não tinha posto de gasolina nem lotérica aqui no bairro", lembra Rafael Militão, dono de uma academia de ginástica na região há dez anos. Em um ano, ele aumentou em 40% o número de alunos matriculados, para um total de 350. A mensalidade também subiu 15% no período. "Muitos alunos foram contratados pela Toyota. O poder aquisitivo dos moradores do bairro melhorou." 

O município recebeu em julho um novo shopping center e aguarda a inauguração de dois grandes empreendimentos - um deles será o primeiro na região da fábrica. No total, serão 800 novos estabelecimentos, segundo a associação comercial. 

Investimentos. A Toyota é uma das 71 empresas de médio e grande portes que anunciaram investimentos em Sorocaba entre 2005 e 2012. Ao todo, a cidade receberá R$ 5 bilhões em investimentos, segundo levantamento da prefeitura. Estão na lista, por exemplo, gigantes como a indústria de alimentos Pepsico, que destinará R$ 120 milhões para ampliação de sua fábrica, a fabricante de equipamentos JCB (R$ 100 milhões) e a Dana, de autopeças, que investirá R$ 240 milhões. O maior aporte será feito pela Toyota, de US$ 600 milhões. 

A onda de investimentos na cidade, que tem 70% do seu Produto Interno Bruto (PIB) na indústria, vai na contramão do restante do setor no Brasil. "Sorocaba é exceção, não é regra", diz o coordenador do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Julio Gomes de Almeida. Segundo ele, a cidade atrai investimentos por oferecer, ao mesmo tempo, incentivos fiscais, logística para distribuição e proximidade com o maior mercado consumidor do País, a Grande São Paulo. 

A Toyota se beneficiou de uma lei municipal que prevê isenção de IPTU e de Imposto sobre Serviços por 12 anos para empresas que se instalarem em Sorocaba. A montadora também ganhou incentivos da Fazenda paulista, como a utilização de créditos de ICMS para investimentos. 

"Existe uma disputa dos municípios pelos investimentos. Elas dão incentivos porque há muitos ganhos com a vinda de uma grande empresa para a cidade", disse Almeida. A estimativa do secretário Desenvolvimento Econômico de Sorocaba é de que a operação da Toyota eleve em 20% a arrecadação municipal em 2013, para R$ 1,7 bilhão. A Fazenda paulista também deve colher os frutos da nova fábrica. Sorocaba é a nona cidade que mais recolhe ICMS no Estado - R$ 1,31 bilhão em 2011, 20% mais que no ano anterior. 

Os investimentos se refletem em índices de crescimento e de desemprego melhores que a média nacional, disse Tanigawa. A estimativa dele é de que o PIB municipal cresça "pelo menos" 10% neste ano, enquanto os analistas projetam expansão abaixo de 2% para o País, segundo o último boletim Focus. O desemprego em Sorocaba está em 4%, abaixo dos cerca de 6% do País. 

Mas, apesar dos investimentos, a cidade não escapa da desaceleração da economia. A geração de empregos vem diminuindo. No primeiro semestre, o superávit entre contratações e demissões foi de 3.249 vagas, contra 4.691 em 2011, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). 

Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,em-sao-paulo-toyota-agita-a-industria,911458,0.htm

 

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Impresso em donderdag 21 augustus 2014

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